COPO MEIO CHEIO
Antes de mais nada, é preciso que o leitor saiba que o texto foi pensado no dia primeiro de outubro e planejado para ser publicado no dia seguinte. Logo, foi pensado e planejado para ser postado antes do primeiro turno das eleições. Tenha isso em mente, caro leitor, isso não é um texto sobre as eleições por incrível que pareça.

Uma espessa névoa cobre os céus como uma redoma impedindo aqueles na terra de verem a luz do sol. Não é um fenômeno natural: essa densa neblina é fumaça, fuligem e poluição. Esse nevoeiro de fumaça é um produto humano, é mais um fenômeno ideológico do que climático, e sua função é impedir as criaturas de desfrutarem de luz solar, jogando um véu de penumbra cinza asfixiante acima de tudo que o sol deveria raiar. Todo esse fenômeno de cortina de fumaça chamaremos de pessimismo ideológico. Pode ter outros nomes, como niilismo, derrotismo, capitulacionismo, etc.
E o que seria esse pessimismo ideológico? É preciso explicar o que seria ideologia e o que seria pessimismo. Ideologia é o conjunto de visões e ideias políticas, filosóficas, religiosas, éticas e estéticas de um determinado grupo. Enquanto que pessimismo é uma atitude mental negativa com tendência a ver aspectos negativos da vida e da existência em geral. O pessimismo ideológico seria portanto todo um conjunto de visões que tendem a ver o mundo sob um viés majoritariamente negativo, se manifestando em geral numa antecipação de resultados indesejáveis. Assim como na analogia de poluição ambiental, o pessimismo ideológico é amplamente difundido e espalhado aos ventos, e é prejudicial e tóxico. É preciso reconhecer a problemática do pessimismo ideológico e combatê-lo.
Antes de mais nada, uma distinção entre "pessimismo psicológico" e pessimismo ideológico é necessária. O pessimismo por si só não é um problema, é algo natural e na maior parte do tempo uma reação esperada dada a repetidas condições desfavoráveis de maneira a se criar uma antecipação negativa da vida e existência. É igual ficar triste; é normal e fundamental sentir por mais que as vezes seja desagradável. O que é ruim mesmo é o pessimismo em grandes quantidades ou num nível anormal. Fazendo agora uma analogia similar a da "cortina de fumaça" do começo do texto: É normal tossir, só não é normal tossir o tempo inteiro. Assim como também não é normal e nem saudável tossir sangue uma vez por semana. O pessimismo ideológico é essa fumaça tóxica que faz aqueles envoltos nela tossirem e se asfixiarem. Positivo e negativo são dois aspectos fundamentais de tudo nessa vida, e naturalmente iremos querer mais do melhor e menos do pior. É insensato querer mais do pior e menos do melhor, mas possível. Ter uma reação pessimista ao mundo não é um problema, ruim é o que tem como único objetivo de te fazer enxergar somente o negativo na maior parte do tempo. Ou pior, que tem como objetivo inverter as coisas e tornar o indivíduo numa inversão de si, fazendo-o juntar mais do negativo e diminuir do positivo. Portanto, o pessimismo ideológico é isso: um reagente de negatividade política, filosófica, etc etc que tem como objetivo despertar uma visão negativa do mundo e da realidade.

E infelizmente os corações e mentes das pessoas hoje em dia é tomado por este pessimismo ideológico. É o zeitgeist, o espírito do tempo da era no qual vivemos. Os dados estatísticos crescentes da epidemia de depressão, ansiedade e burnout só reforçam essa tendência ao desespero e desamparo na nossa sociedade.1 Antes do doomscrolling, a tarefa de causar angustia na população era da televisão, da rádio, do jornal impresso, do teatro, do padre e etc. E falando em fatos: parece que não faltam motivos para se desesperar. Liga-se qualquer aparelho de comunicação e você é bombardeado com motivos para se deprimir. Quer dar uma volta na rua para arejar a cabeça e fica com medo de ser assaltado, agredido, constrangido, ou algo pior. Se ficar em casa, apodrece; se sair na rua, corre riscos contra integridade física e moral; e a única luz acesa são a das telas que te adoecem. Esse clima sombrio é o fermentador do pânico, que por sua vez é o destilador do pessimismo, da apatia, cinismo, e do delírio. Ou você acha que o sol não vai mais voltar a brilhar, que nunca brilhou ou que não importa se brilha ou não. É o "universo" tentando fazer você desistir antes mesmo de começar. Agora dando nome aos bois, não é o "universo" te deprimindo, ou mesmo uma "natureza humana naturalmente pessimista", tudo isso, assim como a poluição na nossa atmosfera, é fomentada por pessoas com nome, sobrenome, e endereço ao longo da história. Existem culpados do seu adoecimento, pessoas que só tem a ganhar com você desesperado e pessimista.
Para citar um filósofo alemão do século XIX:
"As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante."2
Logo, esse assim chamado zeitgeist é nada mais que as ideias dominantes da classe dominadora da força material da sociedade. Ou seja, dos ricaços proprietários de grande indústrias, comércios, bancos, terras e etc. Um bando de burgues safado que vive num mundo as avessas distante abissalmente das classes oprimidas difunde uma ideologia pessimista catastrófica e apocalíptica. E toda essa disseminação tóxica cumpre a função de asfixiar os oprimidos alienados, perpetuando sua opressão fazendo com que haja o mínimo de resistência. Um leitor inquieto poderia indagar: "Mas SWAG☆STATION, os ricaços tomam champanhe todo dia, andam de iate toda hora, eles não são pessimistas ou depressivos! Não tem como eles serem! Eles tiram fotos sorrindo e riem da gente!" Na história da opressão, aquele que manda morre de medo de que o oprimido se revolte, e foi assim em toda história. Claro, há vários exemplos de opressores que se iludem com a ideia de que o oprimido nunca se rebelaria. Inventam histórias em que o oprimido é dócil, manso ou burro, sendo este incapaz de se rebelar. A história sempre prova a esses idiotas que eles estão errados. Se eles não tivessem medo dos despossuídos, eles não estariam vivendo em fortalezas armadas até os dentes, com câmeras em todo canto. Não teriam a grande mídia na sua folha de pagamento fazendo o trabalho da imprensa ser um acessório de relações públicas da classe dominante. Não teriam todo um batalhão de juristas, militares, policias, drones, fuzis, capitães do mato e toda sorte de recursos para se proteger da insurgência que tanto temem. Na história da humanidade - e na história da luta de classes - os opressores tendem a serem desbancados pelos oprimidos. São os ricaços opressores que tem todo o motivo de serem pessimistas. Eles podem não saber o motivo de sua iminente derrota, muitos até acreditam nas mais insanas teorias da conspiração que justifiquem seu pessimismo, mas de uma coisa eles tem certeza: a hora deles está chegando.
CLASSES EM LUTA
Um sábio pensador alemão uma vez disse:
"A história da humanidade é a história da luta [...]"
E sem dúvidas, a historia da humanidade sempre foi da luta entre os oprimidos e os opressores. E ocasionalmente em momentos críticos, a balança da opressão é radicalmente alterada durante uma revolução. Daí os papéis se invertem, o opressor passa a ser oprimido e o oprimido passa a ser o opressor. Na revolução francesa a burguesia urbana e o campesinato rural eram oprimidos pela nobreza feudal e pelo clero, e com o processo revolucionário, os papéis se inverteram dramaticamente. Na revolução estadunidense não foi diferente, eram burgueses americanos versus nobres ingleses;3 na revolução russa e chinesa foi o proletariado urbano + camponeses versus grandes burgueses, proprietários de terra (latifundiarios) e mais outra cambada de filho da puta. No Brasil tivemos inúmeras revoltas4 que não chegaram a tomar o poder central, porém seu impacto foi inegável no coração dos opressores e oprimidos. Enfim, delineiam-se duas trincheiras: oprimidos em maioria versus opressores em minoria. E claro, as condições dessa luta de classes não é favorável para o oprimido, pudera né? Afinal, ser oprimido é uma desvantagem e tanto. É tão desfavorável pro oprimido que muitos podem até crer que é uma batalha perdida, afinal o outro lado possui mundos e fundos e todo aparato repressivo do lado deles, o que sobra pro oprimido? Nada! Tudo que o oprimido tem a perder são suas correntes! O opressor precisa do oprimido para continuar existindo como tal, sua existência demanda sangue do oprimido. Enquanto que a existência do oprimido demanda pura e simplesmente resistência ao opressor, existir já é resistir nesse caso. O oprimido não precisa do opressor para existir. A classe dominante existe mediante dependência parasitária da classe dominada. O fim do oprimido é o fim do opressor, mas o fim do opressor não é o fim do oprimido.

O pessimismo ideológico surge dessa crise existencial da classe dominante. O antídoto para esse veneno é o otimismo ideológico. É mais ou menos uma antítese do pessimismo, onde por um lado o pessimismo vê o copo meio vazio, o otimismo vê o copo como meio cheio. Uma ideologia otimista deveria ser a mentalidade do oprimido, afinal sua existência é oposta a decadência iminente do opressor, mas não é o caso. De novo, a ideologia dominante de uma determinada época é a ideologia da classe dominante, portanto, é comum que o oprimido possua a mesma mentalidade que o opressor por mais que a materialidade de ambos sejam radicalmente diferente. E quanto maior o abismo entre eles, quanto mais despossuído o oprimido é, mais ele se agarra as ideias do opressor. Como, então, pode o oprimido romper com a dominação ideológica pessimista do opressor para que possa ele desfrutar de otimismo? Como pode o subjugado ver a luz do sol estando atormentado pela opressão ideológica e material? Somente se movendo em direção à emancipação. E sua libertação demanda uma completa revolução na ordem das coisas. Sem opressores, não tem como haver oprimidos. O otimismo deve ser emancipatório, transformador, e, em outras palavras, o otimismo precisa ser revolucionário. O oprimido precisa mais do que almejar um mundo melhor, ele precisa se mover nesse sentido. O mundo melhor onde ele não é mais o oprimido, pois agora é emancipado, livre. O opressor não consegue ver um mundo diferente do atual, sempre sonhará com um passado idílico que nunca existiu onde supostamente era tudo melhor, e tentará o máximo possível adiar esse inevitável futuro onde serão aniquilados para o mais distante possível. Eles sabem que não sobrará nada para eles, talvez nem a vida. Portanto, um otimista tem que ser revolucionário, e um revolucionário tem que ser otimista. O mundo melhor é possível para aqueles que acreditam e lutam por transformar a realidade.
Agora, justamente para que o texto não fique parecendo papo de coach ou proselitismo evangélico, é importante destrinchar melhor o que o texto se propõe com "otimismo", contrário a alguns equívocos comuns. Existe a ideia de que todo otimista é sonso, ingênuo, quando não um completo idiota desconectado da realidade. Isso não passa de soberba debochada. Quem não tem nada a perder só tem a ganhar, simples. É típico do indivíduo que se diminui o tempo todo procurando outra pessoa para diminuir, de maneira que se sinta grande com isso. No fim todos já foram ingênuos algum dia, e alguns continuam almejando ser. Como o otimismo revolucionário luta pela mudança, não será ingênuo para sempre, afinal ele mesmo terá que mudar eventualmente. E a crítica de que otimistas são desconectados da realidade pode ser válida em alguns casos que serão em breve descritos, só é preciso reconhecer que um pessimista está tão desconectado da realidade quanto um otimista equivocado, ainda mais na situação de oprimido.
O otimista vê o copo meio cheio e o pessimista vê o copo meio vazio. Qual a realidade? Tem um copo com água na metade. Se o copo está com um quinto de água e o resto vazio, seria insensato um otimista acreditar que o copo está meio cheio, correto? Sim, seria uma ilusão por parte do otimista em negar a realidade. Ele pode interpretar a realidade de forma otimista, pensando que um quinto apesar de pouco, é "melhor do que nada". É aí que entra o papel transformador da sociedade em transformar o copo meio vazio em copo meio cheio, quando não, totalmente cheio a ponto de transbordar. Tanto um revolucionário quanto um otimista devem ter os pés firmes na realidade para que esta possa ser transformada, caso contrário este não passará de um sonso equivocado. De certo modo, o revolucionário está também negando a realidade em sua transformação, pois afinal o que é o movimento se não a negação do imobilismo? Só que existe aquele que nega a realidade transformando-a, isto é, nos atos, e aquele que nega a realidade somente em sua cabeça, fomentando um imobilismo sem querer querendo.
LUTA COM CLASSE
Tem um pensador alemão do século XIX que uma vez disse:
"Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transforma-lo."5
Os papos de coach negam a realidade buscam vender outra coisa, na intenção de que você não mude o mundo. Se você estiver desconectado da materialidade, você também está separado da chance de mudança. O pessimismo ideológico como ele não tem como ser revolucionário, ele implanta a ilusão no seio das pessoas em relação a realidade. O mundo real pode sim estar uma bosta, mas eles o farão acreditar estar pior. O copo pode de fato estar com menos da metade de água, e o pessimismo dirá que "é daqui pra pior". Isso sem falar do escapismo, que aparenta contornos otimistas de fugir para uma realidade mais agradável quando também não passa de um pessimismo envergonhado, pois também nega as próprias capacidades de transformação. O "coach" se contentará com migalhas dizendo que é um banquete, o derrotado dirá que as migalhas "são a única opção", o apático não consegue imaginar outra coisa além das migalhas, tanto o otimista sonso quanto o pessimista dirão "é melhor do que nada", o escapista tentará fugir das migalhas na intenção de enganar a fome, mas somente o autêntico otimista - o otimista revolucionário - que dedicará todo seu esforço para que todos os oprimidos possam comer mais do que migalhas, e passem ter não só o pão, como também os utensílios para fazer pão, a terra para plantar o trigo, as ferramentas para cultivar, o fogo para assar, e a fome saciada de uma vez. Positividade tóxica seria fazer da fumaça asfixiante ter cheiro de perfume e cor-de-rosa. O iludido é quem pensa que poluição é nuvem. Revolucionário é quem quer ver o sol e se dedica em limpar os céus de toda sujeira levantada nos últimos séculos.
Portanto, enquanto o céu for cinza, ainda há muito trabalho a ser feito. E esse trabalho precisa ser devidamente embasado na realidade ou será ineficaz. A esperança não pode ser cega, ela deve ser palpável a todo momento. E claro, leva tempo, requer esforço, e parece impossível, mas não faltam exemplos históricos que é possível e desejável. Você pode lembrar da revolução no Vietnã que venceu do exército mais poderoso do mundo, da valente Resistência Palestina que hoje enfrenta um dos exércitos mais bem equipados tecnologicamente. Sério, não faltam exemplos antigos e atuais de oprimidos em absoluta desvantagem conquistando a própria emancipação sobre exércitos ditos invencíveis.

Caso o leitor acredite que é impossível ver o mundo desse jeito, que seu coração é 90% desespero e 10% apatia, por favor, não pense que isso é um ataque contra você ou seus sentimentos. A realidade do oprimido é dolorosa, e sentir dor é... lógico, é real, não tem por que negar. Os sentimentos são reais e válidos. Sentir tristeza num ambiente triste significa que você está efetivamente naquele lugar existindo. É uma existência um tanto indesejada, é claro, afinal todos almejam alegria. A ideia desse texto não é que se vire as costas para os sentimentos negativos, mas que se reconheça as interferências externas que DESPERTAM essas emoções. Ninguém está errado em chorar quando a polícia joga bomba de gás lacrimogêneo. Ninguém está errado em sentir medo de valentões inconsequentes armados intimidando os outros por aí. Ninguém está errado em gritar quando apanha de um cassetete, ou de cair quando toma um tiro. A ideia é que as lágrimas não te impeçam de enxergar, que o medo não te paralise frente aos valentões, que o grito não te deixe rouco e que se você cair na luta, outro lutará por você, assim como sempre foi durante toda a história da humanidade. Caso tudo isso ainda não te convença que a mudança para melhor é possível, ao menos reconheça que se fosse impossível mesmo, os "poderosos" não teriam medo dos subjugados. Se tudo estivesse perdido, eles não investiriam milhões todos os anos em tecnologias de opressão e subjugação. Se a realidade fosse uma ilusão - uma simples questão de opinião - eles jamais teriam esse exército de filósofos burgueses, influencers vendidos, coachs pilantras, pastores safados, jornalistas mentirosos e toda sorte de intelectuais desonestos tentando te vender uma perspectiva de maneira a esconder a realidade de você. Se lutar não é o caminho, porque então eles lutam contra nós?
Um sábio estrategista chinês uma vez disse:
Nós devemos banir das nossas fileiras toda a ideologia feita de fraqueza e impotência. São errados todos os pontos de vista que superestimam a força do inimigo e subestimam a força do povo.6
Por fim, fica aí a defesa do otimismo revolucionário. Ou de quem já é revolucionário, de ser otimista sempre. É preciso delinear também que ideologia tem classe, e classes tem interesses que teoricamente deveriam manter sua perpetuação e existência como tal. O inimigo não é o oprimido tomado pelo desespero, é o opressor que estimula o pânico. É salvar o enfermo e matar o vírus, e não o contrário. Há casos onde o enfermo intencionalmente quer propagar o vírus, e este deve ser isolado dos demais, e em condições graves este deve ser neutralizado junto do vírus. Portanto é sempre bom ter em mente Quem são os amigos e inimigos do oprimido, como melhor manejar as contradições no seio do povo, e por fim claro, paz entre nós, guerra aos senhores.
O sol voltará a brilhar, caro leitor, e SWAG☆STATION estará lá com você!⭐
Infelizmente só achei essa matéria em inglês↩
Karl Marx em "A Ideologia Alemã". Trecho destacado↩
Não gosto muito desse exemplo porque os desgraçados dos ianques ainda mantiveram escravidão em solo americano. Prefiro mais a revolução haitiana, aquilo sim inverteu papéis↩
Este artigo se encontra incompleto, ajude a wikipedia a expandi-lo↩
Karl Marx em "Teses contra Feuerbach". Trecho destacado↩
Mao TséTung em "A situação atual e as nossa tarefas". Trecho em inglês↩