Minha experiência industrial no Minecraft
"É questionável que todas as invenções mecânicas já feitas tenham servido para aliviar a faina diária de algum ser humano." - John Stuart Mill1

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS
"A revolução industrial e suas consequências foram um desastre para a raça humana"2 é o que acreditam alguns indivíduos por aí, e indo no sentido contrário desses elementos, o autor de SWAG☆STATION tem um certo ponto fraco por jogos que abordem indústrias, automação, linhas de montagem, mecanização, malhas logísticas e muito mais. O jogo pode ter tanto uma vista isométrica como um tycoon qualquer, pode ser um mapa-múndi, uma planilha de excell. 2D ou 3D, a única coisa que importa é otimizar a produção ad infinitum. Basta ter no nome "Factory", "Industry" ou substituir a letra "O" por o de uma engrenagem genérica para ativar meus neurônios.
Não joguei todos, nem a maioria sequer, afinal, se estou cuidando da industria em um jogo como eu poderia cuidar da industria de outro? Esses jogos geralmente demandam tempo, seja para aprender a jogar, seja de fato jogando e mantendo as criações. São horas planejando, mais horas colocando em prática e com o tempo que sobra se estuda mais sobre o jogo, seja lendo as tão queridas wikis ou lendo documentações a respeito. Mas nunca sobra tempo, eventualmente ocorrerá uma lambança na linha de montagem que irá demandar todos os seus neurônios para resolver e é tudo culpa sua. Não dá para negar que esses jogos viciam e são capazes de consumir a alma do jogador, mas não deixam de ser divertidos e até prazerosos.
Afinal, o que seria um "jogo de indústria"? Seriam os que retratam indústria como jogos de economia e estratégia (exemplo: Victoria 3)? Ou jogos que o gameplay central é logística como alguns puzzles? Quero fechar esse escopo como sendo jogos que tem como ponto principal o planejamento e construção de cadeias produtivas, que dessa forma engloba os mais diversos jogos, seja os de puzzle, economia ou estratégia. Amo todos.
Este texto a princípio seria uma exposição de certo modo cronológica e expositiva de jogos de indústria e automação. Porém, optei por encurtar e contar apenas uma história. Fica aí a idéia para outro texto.
DA MANUFATURA À INDUSTRIA
Primeiro de tudo: NÃO considero Minecraft um jogo de indústria ou automação. Sempre achei Minecraft fraco no que se refere a automação, indústria e logística. Claro, existe toda sorte de maquinaria que dá para fazer com redstone, hoppers, pistões, e etc, porém sempre achei esses trambolhos desengonçados de se construir. São muito mais da parte de jogabilidade emergente de Minecraft do que um aspecto central de sua gameplay. Não sei se isso se alterou nas versões mais recentes de Minecraft, mas por muito tempo toda a produção in-game se resumia a uma manufatura quase restrita a crafting table. Foi só em 2025 que foi adicionado o copper golem para ajudar na logistica, porque antes disso era baú e minecart + hopper até a morte, isso sem falar naqueles que faziam os itens se locomoverem boiando em circuitos de água simulando canos. Tudo isso sempre me pareceu rudimentar, trabalhoso e trazendo poucos benefícios reais. Sem falar que também da para ignorar quase tudo que envolve redstone e jogar sem muitas dificuldades.
A bastante tempo atrás, Minecraft era para mim mais um jogo de minerar e construir (assim como no nome) do que de ficar fazendo maquininha de redstone, que era uma parada bem secundária. Jogos que focavam em mecanismos e automação costumavam me assustar e afastar pela complexidade, mas não deixava de admirar, ainda que de longe. Um belo dia entrei no servidor de Minecraft no saudoso Aternos que tinham alguns mods instalados. Cabe lembrar que até aquele momento, eu nunca havia jogado minecraft com mods antes pois achava tudo muito complicado de mexer. O dono do server era o cunhado da namorada do meu amigo na época e ele havia colocado mods, que dos quais eu lembro eram: IndustrialCraft 2, BuildCraft, RailCraft e o ComputerCraft. E pronto. Esse foi o meu primeiro contato com a droga.
Quem conhece e já jogou esses mods já deve saber o que há por vir, mas para quem não conhece, ai vai um resuminho de cada: IndustrialCraft 2 - meu favorito - adicionava máquinas de processamento entre outras coisas que mudavam completamente o ritmo de gameplay como também um sistema de energia e produção energética para alimentar a indústria muito mais complexo e avançado do que redstone; BuildCraft também tinha um sistema de energia próprio, mas na minha opinião ele brilhava na logística com seus canos que podiam transportar fluidos e itens deixando o trabalho de alocação e distribuição de recursos muito mais dinâmico e flexível; RailCraft era o que menos usei desses daí, e particularmente não lembro de ter usado tanto ele assim, mas ele tinha ferramentas e blocos indispensáveis que adicionavam muito a experiência geral; ComputerCraft era de longe o mais complexo e com mais potencial desses todos, pois ele acrescentava computadores in-game e robôs que poderiam ser programados na linguagem de programação Lua. São tantas possibilidades e sinergias com os demais mods que de modo geral fazia Minecraft parecer outro jogo por inteiro.
Esse meu contato com a droga plantou a semente da indústria em meu coração. Passei horas e horas entrando no server, as vezes eu mesmo abrindo pelo Aternos só para expandir a indústria. Em semanas eu ja tinha construído um reator nuclear funcional para produzir energia para minha fábrica cada dia maior. Começou como uma simples oficina e se expandiu para uma indústria.
Eventualmente, como toda boa gameplay em server de Minecraft, durou algumas semanas e eventualmente só eu entrava naquele server. Chegou num ponto da indústria que eu não sabia mais o que fazer ou o que eu estava fazendo. Foi uma ótima experiência, mudou minha forma de ver e jogar Minecraft de maneira quase irreversível. E por fim, eu entrei uma ultima vez no server e não voltei mais. Acontece com todo mundo, vida que segue.

AS MÁQUINAS NÃO PODEM PARAR!
Após algum tempo, fiquei com saudades das minhas máquinas, e queria jogar mais. Não precisava ser Minecraft com mods contando que coçasse a coceirinha de jogos de indústria que eu tava necessitado. Tentei retornar ao Minecraft com aqueles mods citados anteriormente, mas não consegui ficar muito tempo. Desisti porque passei muito perrengue configurando e instalando os mods.
Procurei jogos que pudessem saciar minha necessidade desde o famoso Factorio até mine-clones ou "voxel based games" com elementos de indústria. Posso falar mais desses jogos em outro texto, agora vou pular para adiantar um pouco a história, que foi o modpack de minecraft GREGTECH NEW HORIZON. A primeira vez que eu ouvi falar do GTNH eu pensei "nem fudendo, muito complicado para mim". Depois, tentei dar uma chance abrindo o modpack e fiquei chocado com o quão lagado era, e com a quantidade de tralha na tela. Assim que eu abri eu pensei "isso não é Minecraft, é outra coisa" e só de pensar que eu teria de reaprender o minecraft tudo de novo me desincentivou de continuar. Fechei mais uma vez.
Dei uma terceira chance pro GTNH e dessa vez ficou, ou melhor, eu fiquei. Foram semanas e até meses jogando quase exclusivamente esse incrível modpack. Tenho agora um total de 250 horas mais ou menos, e estou em tipo 10% da progressão tecnológica do mod. GregTech atingiu todas as minhas necessidades e criou novas no lugar. As máquinas não podem parar e a indústria precisa crescer!
Quem conhece GTNH ja sabe da fama de modpack complexo e maldito. Ele torna várias receitas do minecraft vanilla 10x mais complexas apenas pela dificuldade e cria um sentimento de conquista quando você consegue fazer coisas simples como uma porta ou tocha. Olha o recipe da porra da porta:

Há também uma progressão tecnológica onde o jogador começa na idade da pedra e vai progredindo tecnologicamente e industrialmente com o passar do tempo. Você começa com equipamentos rudimentares de pederneira, depois de ferro, depois de aço, depois máquinas a vapor para substituir suas ferramentes e depois máquinas melhores daí por diante. É desafiador, por vezes massante, mas muito, muito recompensador.
A INDÚSTRIA PRECISA CRESCER!!
Talvez o maior barato desses jogos de automação e indústria seja a força do progresso tecnológico sendo palpável. Com o GTNH você sente na raça a necessidade laboriosa de acumular um produto para depois de algumas horas de gameplay você conseguir automatizar toda a produção de maneira eficiente.
Minha experiência começou com ferramentas rudimentares e uma produção bem básica na idade da pedra do mod. Eu tinha meus instrumentos de trabalho primitivos, minha simplória e pequena base e uma certa dificuldade de manufaturar recursos necessários para a progressão. Eventualmente, consegui melhorar minhas ferramentas para materiais melhores, pois as antigas se desgastavam muito rápido e isso custava mais recursos. Um machado de pederneira demora para cortar uma árvore e quebra rápido, é necessário construir um de um recurso melhor, de modo que ele dure mais e não precise ficar construindo ele toda hora. A progressão é nesse estilo. Você precisa de ferramentas melhores para coletar ou produzir alguns recursos, e com esses recursos, você os transforma e passa a utilizar em novas ferramentas. Progressão simples, tem isso no Minecraft vanilla, o GTNH não reinventa a roda nesse sentido.
Depois, vem a invenção mais revolucionária que são as máquinas a vapor. Essas precisam de uma produção de vapor para funcionar, nisso a infraestrutura da sua produção começa a ganhar forma, pois você precisa de combustível e água para produzir a força energética que alimentará sua indústria. As primeiras máquinas a vapor servirão como substituto para algumas ferramentas, de modo que você não precise usá-las, reduzindo o desgaste. Algumas outras máquinas posteriormente terão funções que o próprio jogador não tem como manufaturar com as ferramentas de sua disposição. Mais máquinas, maior requerimento de energia, maior necessidade de se produzir e distribuir vapor. É preciso uma certa organização para evitar o desperdício e maximizar a eficiência.
Daí em diante ocorre uma progressão de tudo. As necessidades de produção aumentam e mudam, as de distribuição se tornam complexas, a logística vira um problema cada vez mais imediato. É natural. E aquela simples oficina de máquinas independentes começa a tomar forma de uma indústria, onde uma máquina se conecta a outra que se conecta a outra, com cada vez menos inputs humanos. Cito aqui um economista alemão que descreveu esse fenômeno durante os anos da revolução industrial:
"No lugar da máquina isolada, surge, aqui, um monstro mecânico, cujo corpo ocupa fábricas inteiras e cuja força demoníaca, inicialmente escondida sob o movimento quase solenemente comedido de seus membros gigantescos, irrompe no turbilhão furioso e febril de seus incontáveis órgãos de trabalho propriamente ditos."3

A FÁBRICA PRECISA SE EXPANDIR!!!
Você faz as ferramentas para fazer ferramentas, depois, faz ferramentas para fazer máquinas, e depois, faz máquinas para fazer máquinas. E assim por diante nessa caminhada. A progressão nem sempre é linear dessa forma, as vezes se dá com uma expansão da produção ao invés de uma automação. O jogador pode sempre duplicar o número de máquinas para assim duplicar a produção, mas para isso é necessário adequar a produção energética para as novas demandas. Por outro lado, pode-se também otimizar a produção de maneira que a demanda de matérias primas seja menor, deixando a produção mais eficiente. Há também como melhorar a produção energética de forma que produza mais energia com menos recursos, ou que as máquinas passem a demandar menos energia, sendo possível ampliar a produção sem mudar o consumo energético. São muitas possibilidades de expansão.
Enquanto eu jogava, percebi que a dinâmica de gameplay começou a mudar. Antes eu ia atrás dos recursos e andava pra lá e para cá construindo. Com a mecânica de fadiga do minecraft, eventualmente eu precisava comer bastante (e isso gerava uma necessidade de produção agricultural que não vou nem abordar aqui), afinal, é preciso que o personagem reponha as energias. Quando a indústria estava tomando forma, a necessidade energética passou a ser das máquinas, afinal meu boneco já não precisava ir pra cima e para baixo mais, então a demanda por alimentos diminuiu... não é? Negativo. Agora eu precisava ir para cima e para baixo atrás de combustível para as máquinas. Antes eu usava as ferramentas e as máquinas, e lentamente eu passei a ser usado pelas minhas próprias criações.
Haviam momentos da gameplay que o que eu mais fazia era um trabalho de operário de mover um item de uma máquina para a outra enquanto eu ficava olhando para as máquinas fazendo barulho funcionando, e enquanto as máquinas estavam trabalhando muitas vezes eu estava ali parado esperando elas terminarem. Até que "putz, acabou a energia, preciso correr atrás de combustível". "Putz acabou o produto que faz o combustível, vou correr atrás desse produto". "Putz acabou a ferramenta de coleta do produto que faz o combustível, vou produzir uma nova". "Putz a máquina que faz a ferramente ta sem energia... fudeu". Isso pode ocorrer numa produção mal planejada, e me ocorreu inúmeras vezes. Mas eu sempre pensava: "As máquinas não podem parar!" e corria. Para citar um economista político alemão que descreveu isso no século 19:
"Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve á máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos."4

E isso eventualmente se torna um problema do ponto de vista da gameplay, porque começa a ficar CHATO todo esse processo. Quando eu me dei conta que estava jogando isso no GTNH, eu decidi dar um tempo. Não estava mais me divertindo e nem progredindo no jogo. Parecia que eu estava enxugando gelo, e produzindo mais gelo para evitar que eu precisasse enxugar. Não tava legal e eu estava jogando já por semanas. Ficou parecendo um trabalho, e quando o jogo fica parecendo um emprego é porque é sinal de dar uma pausa. Tenho a citação de um outro economista político alemão que descreve bem isso:
"A morna rotina de um trabalho desgastante e sem fim, no qual se repete sempre e infinitamente o mesmo processo mecânico, assemelha-se ao suplício de Sísifo - o peso do trabalho, como o da rocha, recai sempre sobre o operário exausto."5
As vezes parece que as máquinas por trabalharem pela gente ela nos liberta do trabalho, mas não é o caso na maioria das vezes. Ela acaba nos dando tempo para trabalhar MAIS em outros trabalhos. Ela não nos liberta, só torna nosso trabalho mais fácil e eficiente. A revolução industrial veio para provar que o trabalho apenas se intensificou. O aumento da produção não diminuiu as demandas, pelo contrário, aumentou elas, renovou necessidades e até mesmo criou novas.
A tecnologia não é neutra e nem sempre todo avanço tecnológico vem para o bem da humanidade. O sonho do homem de subjugar a natureza o fez criar máquinas, e ironicamente, suas criações que o subjugaram. Trágico e lindo ao mesmo tempo. O fogo da técnica que Prometeu levou à humanidade, o fogo que esquenta nossa comida e queima nossas florestas, esse mesmo fogo continua queimando. A pedra de Sísifo continua rolando. As máquinas não podem parar.
John Stuart Mill em "Princípios da Economia Política"↩
Citação inicial do manifesto do Unabomber↩
Karl Marx no capítulo "Maquinaria e Grande Indústria" em "O Capital". link do texto em inglês↩
idem↩
Friedrich Engels em "A situação da classe trabalhadora na Inglaterra". link do texto em inglês↩